terça-feira, 11 de abril de 2017

RENDEZVOUS, BY KARINA PALACIOS

RENDEZVOUS

It wasn't -weren't- necessary
           either flesh or dreams
         hardly was the table set

Actually
   it was necessary
       the rope linking
       the shade to the silhouettes
       the voice to the words
       an assertion on time

There are
    still burning candlesticks
       warmth on the face
       coffee for tabletalk
       laughters crumbed over the tablecloth
       naughty secrets to soak
in the shared aura
       and probably some gleam
       just in case some kisses come up

Now
       a bit late
       maybe out of time

Everything is ready
       even the needed coldness
        for the maximal hug

Then
   although late
     please say yes


SECOND RENDEZVOUS

Recalling tenderness
     as an answer to fear
Getting across the threshold of likelihood
     into mystery
       without caring about future
       without the story
       going on
       disappearing
       stopping

Without altering
glance
reason
feelings
time

Getting through the abyss
       until its core
coming across      the only shelter - the best one
       and in the eye of the hurricane
       untouched there
       imperturbable
         astonishment
           served hot
           on a tea tray
           set for both of us.


THIRD RENDEZVOUS

it is amazing coming across
a quarter of a century later

the same
nitid sensation
its colours renewed
intensive

the memory leaves are green again
- when the summer is almost over!-

the same nostalgia
and other goods
carefully placed
        reportedly concealing every lost chance

some farewells       goodbyes
with intentions of return
        features shaped according to fate
the rare caresses
finally turning into butterflies
free of reasons
incomplete collections of postponed
more and more boiling moments

it turns out
still more amazing
a certain impatient serenity
placed among unease and
perfectly bloomed euphoria
set in the middle of   the anecdote

not a single scratch on dreams
not even a token of season change

untouched even that wakefulness
      that yesterday turned into recklessness
      that invited rush into its space
      that poured out in kisses
even she
resists
a bit more careful
a quarter of a century more mature
resists
the appetite emerging from outside
looking through the window    leaning on the glass

it is astonishing how
      this bright shelter of time
        for ever reserved
        the table set
        the bed ready
        for the only acceptable dweller
                the absolute owner
monarch and subject
         finally taken
makes complete sense      fulfils all the rest

© Text: Karina Palacios
© Translation: Frantz Ferentz

sábado, 8 de abril de 2017

LÁ FORA CRESCE A ÁRVORE, DE DANIELA GAITÁN



LÁ FORA CRESCE UMA ÁRVORE

Formas de dizer lá fora cresce a árvore sem mencionar

A erva da orvalhada a raíz do sol nos ramos
Sem que a evolução seja detida...
Há tantos tantíssimos anos
Milhões de anos
Milhões de milénios

                                 Crânio grande

                     Queixo espalhado de forma antiestética
Desconhecida ainda a fonologia: parte da linguística que estuda os fonemas ou descrições teóricas dos sons vocálicos e consonânticos que formam uma língua
Só o costume do sobrevivente.
                                 
Milhões de milénios por diante
Crânio estranho
Queixo injusto                        apreender o lume apreender as rochas

                                                           O uso homohumano

O cova  a ninho
os fenómenos daquela altura não revelaram o mistério
como voltar para o ninhoprimeiro uterodaverdadeira
que não,
tristemente
tampouco hoje concebemos.

Elo evolutivo, tantíssimos anos de distância entre nós,

A sentirmos frio,
Mais do que frio, fome absoluta
De homosapiens absoluto.
Tu, cérebro estilizado, longínquo de toda a história arqueológica que ťe acontece:
Dá-nos, por favor, força de vontade, que nos alcancem
Os ninhos para introduzir os dentes, ao menos
enquanto continua a raíz a espalhar sub-terra-nea-mente
-como veia de sangue espesso- não se detém.



Lá fora: cresce a árvore, vai sol, sopra o vento, tremem as folhas, secam os frutos, mexem os pássaros, encontram-se as pessoas, mora o futuro

E digo futuro

E tudo vem para mim, mas a árvore vai no seu caminho para o céu
O seu caminho divino.

Chegará com uma palavra para alterar a soma de tantas verdades:


Lá fora /tudo continua, não prossegue, só continua/

Cresce a árvore
Vai sol
Sopra o vento
Tremem as folhas
Secam os frutos
Mexem os pássaros
Encontram-se as pessoas 
Mora o futuro | começa a chover

E digo chove

E o presente simples sem adornos quica nas têmporas de qualquer um, não é assim portanto como quica a história a precariedade das nossas estruturas:

Vou ao ninho

Para saír mais tarde, novamente, outra vez. Esta vez
Tal como faz a árvore aí. Lá fora.


© Texto: Daniela Gaitán
© Tradução: Xavier Frias Conde

quarta-feira, 29 de março de 2017

MÃE, DE YULIANA ORTIZ RUANO

Mãe,
sonho com o meu cadáver todas as noites.
Do meu ventre penduram dous seres que não quiseram nascer.
Renunciei a tudo o que me fazia infeliz.
Renunciei a tudo.
Renunciei.
Só até que ťe arrancam com as duas mãos o esterno
abres as pálpebras
e varres as crostas secas
que tapizam o chão do teu quarto.
Só até quando alguém mete a mão no teu embigo
e extrai uma víscera sangrante
que lateja quente no ar
convertes em argila a casa
e tentas moldar nela
ou esmaga-la de vez.

Mãe,
tenho vinte e três anos
mas parece um século.

Sonho com o meu corpo teso
todos os dias.
Renunciei a tanto, mas
por que esta vontade chorar?
Por que as feridas
suturadas abrem e sangram outra vez?
Por que o silêncio
disseca os meus ossos?
Por que a porta está ainda fechada
diante do meu rosto?
Renunciei a mim.
Renunciei.
Abandonei-me em cada tarde.
A Yuliana fica à minha espera
nalguma longínqua estação.
Impaciente;
come as unhas,
os dedos.
Yuliana come-se.

Mãe,
continuo a falar de mim
para a gente
como se isso interessar.
Como se a coberta se erguer
e me disserem
que pare de chorar,
que tudo foi uma brincadeira pesada,
que agora posso rir
às gargalhadas de mim
e do meu ventre.

Que tudo isto foi uma brincadeira
muito pesada.
Que isto não sou eu
que para além da coberta
há vida a sério.
Mãe,
renunciei a tudo quanto me fazia infeliz.
Por que a muralha continua a crescer?
Mãe,
não devi sair do teu ventre.
Olha os meus ossos.
Olha a sua fragilidade.
Olha os seus dias
que pousam lilás
sob os meus olhos.
Olhas as minhas mãos
transparentes.
A muralha tem vida.
Ao meu redor tudo exala mais vida do que eu.

© Texto: Yuliana Ortiz Ruano
© Tradução: Xavier Frias Conde

segunda-feira, 27 de março de 2017

SEGUNDO ENCONTRO E OUTROS POEMAS DE KARINA PALACIOS


SEGUNDO ENCONTRO

Evocar a tenrura
Em resposta ao medo
Atravessar o limiar do possível
Para o mistério
Sem o futuro interessar
Sem a história
Nem prosseguir
Nem desaparecer
Nem se deter

Sem alterarmos
O olhar
A razão
Os sentidos
O tempo

Atravessar o cataclismo
Até o seu centro
O melhor
Descobrir         o único abeiro
E no olho do furacão
Intacto ali
Imperturvável
O assombro
Servido quente
Sobre uma mesa de chá
Posta para nós os dous.

SUSPENSO

Amo-te disse
E pôs fim à história

E logo
Ela brotou num sorriso

Mas não era este
O amor tépido do beijo
Mas o outro
O de sempre
Já conhecido

De acompanhante firme
De auxílio urgente
De palavra certa

Amo-te disse
Pôs fim ao tempo
À hesitação do destino
Pôs fim à espera
Inaugurando
Outra suspeita
De despedida


QUIMERA



As tuas costas perseguem-me em sonhos
como ícone do inabordável
como heraldo do desejo

Contorno improvável
De um destino
De uma outra vida

Os teus braços
Lar da minha saudade
Sem nunca terem sido meus

Os teus braços
Promessa de refúgio

Meus
Por direito
Por estranhos
Por distantes

Os teus braços

… A tua voz

Profana
Precisa
Mordaz

A tua voz
Agoiro de beijos
Banidos

Dança amatória
Do teu alento e da minha pele

Desafio ao meu ventre

A tua voz
Generosa aos meus ouvidos
Ávida de carne
Húmida de carinhas
Intransigente
Estremecida
Ingénua no seu senhorio

A línha complacente dos teus dedos
Prefigura os meus
Muito antes do tacto

Ourives do meu corpo

Mais do que as palavras
Mais do que as carícias

Sou
O lugar que cabe
Entre o sonho e o que não foi

© Texto: Karina Gisselle Palacios
© Tradução: Xavier Frias Conde

domingo, 5 de março de 2017

TRÊS POEMAS DE OSWALDO GUERRA

DESCENSO À PRAIA, UMA MANHÃ DE TRABALHO


Abro-me ao Passeio por entre ruelas
multicolores, ao desenho diáfano
da praia e do seu mar agora tranquilo.
Estou dentro da praia, cegado
por tanta claridade, afagado
pelo ar tão calmo. É como se não houver
ninguém (crianças, anciãos quase quietos):
o silêncio fica longe, adormecido.
Descalço os pés. Afundo ao instante
as minhas dedas no fino grão. Entro.
O mar fala para os banhistas, sussurra
com a sua língua minguada uma inquietante
promessa, arrola os seus corpos salgados,
para penetrarem no seu enorme ventre.
Toca-me a água. Está fria. Vira espuma.
Atrás fica o Passeio, as suas casinhas
baixas e mais para a frente a monstruosa
cidade, o seu barulho portuário, as suas ruas.
Apoio a cabeça até sentir
o céu, e apenas sinto o céu por cima.
Tudo quanto nele há fica escondido
nos grãos da minha praia, oculto
nos seus castelos leves, nos gritos
acompassados daquele vendedor de barquilhos,
na voz das sereias voluptuosas…
Ficarei o resto do dia
para ver que mais escuto.

(De Un rumor bajo la rama, 2012)


CRÍTICA DA BELEZA
[Mito do seixo rolado e a areia]

Quando entardece não é apenas a derradeira luz, mas é o som que se impõe. Perante um mar-onda o seixo rolado, muito antes do que arenisca, bate-se a si próprio e os seus outros infintas vezes, até alcançar certa sinfonia. Quem vir o ruivém crê saber —ah, pequeno deus— da mais elevada beleza, até que aos poucos o calor do sub-trópico desce por um orquestrado rumor. Diminuto instante em que Aquilo e Um somos quase a mesma cousa, embora não o saibamos. Roda e volta, roda como seixo sem vermos absolutamente nada com os olhos do prazer. Prazer era o sol quente que sexuava a nossa pele formosa. Prazer era.

Os litofones fazem agora o seu chamado antes se tornarem areia silenciosa. Jamais serão vistos à noite, mas serão o pulso que, apenas por um instante —na certeza que já o Eros e a Vénus praieira não são senão despojos de Música neste lar africano—, darão sentido ao coração que quiser libertar-se do corpo.



(De Muerte del ibis, 2013)

PALAVRA LUZ

Invejo o calígrafo sufista que pacientemente engasta uma palavra em outra
para se aproximar do resplandor da montanha sagrada,
enquanto eu procuro com a estranha costura entre uma e outra palavra o sentido de uma vida

(De Si existe el árbol. Cuaderno iraní, Inédito)


© Texto: Oswaldo Guerra
© Tradução: Xavier Frias-Conde

domingo, 26 de fevereiro de 2017

1969 E OUTROS POEMAS DE GABY RUIZ



1969

Meu nome é região nesta viagem... 
o tempo perfuma as sombras entre montanhas
as nogueiras reclinam-se para beber no rio bravo
desde a vertigem

Meu nome é região nesta viagem... 
é hora de tomarmos banho sob a chuva
segurar-nos-emos as mãos
desde as beiras

Meu nome é região nesta viagem... 
volto para o meu vazio preferido, o calor
ungida pela terra
como a tangente imortal ao finalizar o inverno transparente



NOVAS PRIMEIRAS VOZES

Surpreendeu-me um silêncio de coiotes
porque respirava a noite
porque eu era lua parda
e me despenteavam os saguaros tenros do caminho
como irmãos que te abraçam

Os meus lábios molharam-se em auréolas líquidas
pranto alegre da Sierra Madre que bebi.
Foi a colheita fresca do tejuino
a ferver nas bochechas.
Eu e minhas irmãs corremos.

Podias chamar-me do vazio dos nomes
porque chovia e rugia o meu coração
porque virara uma mulher sábia.
Tarde-Céu não deve ter estrelas
mas é deus quando ťe grita:
"És uma e eterna"


MOICANO

Emboscada
de costas e braços estendidos,
esses frenéticos continentes
entram em combate
o salto selvagem do impulso narrativo
o duelo dos olhares
o enfrentamento com o mais obscuro inimigo
é dizer, os velhos amantes
o inferno do esquecimento
o desejo de vingança
és o mortal que não perdoa
o primeiro despossuido
emanas do meu derradeiro ocaso
da paisagem do assédio
é tarde demais...
moicano esvaído
                      Vens exterminar-me!

© Texto: Gaby Ruiz
© Tradução: Xavier Frias-Conde

terça-feira, 16 de agosto de 2016

LINHAS PARALELAS E OUTROS POEMAS DE ARI GARRIDO

LINHAS PARALELAS

Não se tocarem nunca
dói-lhes igual
do que não se poderem separar

29/7/13

MAGNETISMO

(...)

5

Ya no se encantarán mis ojos en tus ojos,
ya no se endulzará junto a ti mi dolor.
Pero hacia donde vaya llevaré tu mirada
y hacia donde camines llevarás mi dolor.
(...)
Fragmento de Farewell, Farewell y los sollozos, Crepusculario

Pablo Neruda

Quero um degrau.
Um que meça
apenas um centímetro mais
para sempre tropeçar
no mesmo ponto
das escadas.
essas com vistas para os teus olhos.
Para não ter de ti tanta saudade
Para não reescrever o outono.


17/7/13­ 2/9/13


PROFISSÕES

Nunca pensaste que los sueños
me mandarían tanto de los dos
para sacarlos de su área de confort
cualquier propuesta desmerece consideración.

Enrique Bumbury


Passeavas pelas sanefas,
és dessas que decoram
tudo quanto veem.
E dá-lhes sentido.
Foste nomeada interiorista do ano.
E não voltaste a pisar este chão.
Mas as paredes relembram-te
com cada retrato.

14/9/13

© Texto: Ari Garrido
© Tradução: Xavier Frias Conde

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

LINGUA MATERNA, DE ESPERANZA VIVES




palavras camélias. brancas espirais. singelas. no meu corpo de meiga lactante que arde como os caracóis ignorados sob a chuva. árvores pretas. cromatismo da água afastada guardada entre as mãos. elo face a lentas lagartixas. carne herética espargida como folhas novas de flores discretas. feitiço feito história sobre o leve ranger das carricantas. sobre as sombras quebradas/vermelhas da língua. enquanto me chamam mãe sopra a brisa.


© Texto: Esperanza Vives Frasés
©  Tradução: Xavier Frias Conde

domingo, 14 de agosto de 2016

NOVE EM CADA DEZ, DE SANDRA BARRERA


Nove em cada dez
dentistas recomendam que me mordas
as costas ao menos durante uma lua cheia
por mês enquanto os meus tecidos se dissolvem
num efervescente
universo articulado em torno
da emoção animal de escalar-te.
Brinca comigo a sermos
um símbolo impregnado de poemas:
refutaremos rosa,
rotina ou calendário;
escolheremos lume,
vento e trovoada. Despregar-me-ei
na pele e na alma entregada sobre ti.
Nove em cada dez
astrólogos alarmam-se cada dia
pelos meteoritos que geramos
em cada amanhecer.

© Texto: Sandra Barrera Martín
© Tradução: Xavier Frias Conde

quarta-feira, 13 de abril de 2016

VERBUM E OUTROS POEMAS DE ROSSY EVELIN LIMA

VERBUM
Cada palavra articulada
sustém o peso das línguas do mundo,
marulhada de imagens,
búzios que ainda não encontram
            a sua forma perfeita.

Cada palavra, fonema absoluto,
dá-nos a beber nas suas mãos
a ideia de um passado
em que acreditámos para sempre.

A palavra, 
        a unidade mínima
de expressão ardente,
a base da experiência diária,
dos ecos e da lama
que se amoldam à nossa aparência.

Cada palavra articulada
vai formando a nossa segunda pele,
enche-nos o céu da boca com sussurros alocromáticos.

Cada palavra articulada é a areia do nosso mar,
não existe onda que possa levar o areal embora
               da nossa beira, 
não há sal que derreta ou evapore
o grão edificado pela palavra dita.

Sem interessar a voz
nem o tremor da garganta,
a palavra cai sempre aos nossos pés
tornando-se pedra ou caminho.


AS ILHAS

Somos muitas ilhas,
o rio e o sol
escurecem e aclaram os nossos pés,
as palavras lavam as nossas pernas.

Somos muitas ilhas,
nelas construímos labirintos,
alçamos vegetações de concreto.
Deixamo-nos cair igual que a noite
com rumores de grilos e cavernas.

Por vezes construímos pontes
e viajamos de uma ilha para outra.

Por vezes caminhamos sem pontes
à espera de renascermos noutra beira.

Somos muitas ilhas,
por baixo de nós
flutuam uns laços infinitos
que tencionam ficar na nossa vida

Por baixo de nós há uma pele da cor da cana
que tenciona ligar-se à nossa beira,
que fala a voz de cem povos,
que tenciona enlear-nos
como quando em vez de ilhas
fomos uma só terra
mexida nas asas das águias, condores e quetzais.

Agora somos muitas ilhas,
chega-nos a chuva ou a seca
enquanto erguemos as nossas mãos.
Afastamo-nos a cada dia mais
e construímos muralhas
com cinzas e ramos secos.

Somos ilhas,
mas nas manhãs
quando não há risos na nossa beira
desejamos ser levados pelo vento embora
e termos apenas um nome.


COYOLXAUQUI
Somos muitos que herdámos os teus cascavéis,
vamos adornados, a nossa roupa é a chave
que promete abrir-nos o céu,
mas somos pobres, não é este o nosso tempo.

Desconsolamo-nos
em nossas casas
e vamos carregando os nossos cascavéis
para outras pátrias
onde a terra
talvez nos sorria.
 
Aqui não há nada para nós,
o teu irmão faz a sua ronda por todas as ruas.
O único imposto que aceita é o nosso sangue.
Dissemos-lhe que somos irmãos,
que os nossos cascavéis são a celebração
que a nossa língua não experimentou o ódio.

Tu sim nos escutas, Coyolxauqui, 
envia-nos a tua luz 
para podermos cruzar as fronteiras.

É um brilho eterno o que nos rodeia.

É uma palpitação sentir-te revivida
nos nossos cascavéis,
sentir-te a cada passo
e sabermo-nos estrelas,
alcançando devagarinho
um bocado do teu céu.


© Texto: Rossy Evelin Lima
© Tradução: Xavier Frias Conde

domingo, 10 de abril de 2016

TRÊS POEMAS DE MARÍA ÁNGELES PÉREZ LÓPEZ

[O olhar insolente]
para Ana Orantes, queimada viva pelo seu homem a 17 de dezembro de 1997

O olhar insolente
é uma forma aguda como um prego na terra,
contém uma dose horrível de si próprio
e mal significa
a depauperada humiliação de ficar
como se não
do corpo que se enruga
e se encolhe no seu nó principiante
virando cinza, tornando-se invisível
matéria degradada pelo ódio,
a palha que se prende com moleza.

O olhar insolente
acompanha a mão, a perna insolentes
para atrapar o corpo com o gancho do medo
porque ela está tão sozinha e vencida,
ferida na sobrancelha e surrada
com o tição de medo que leva quem é o seu anjo
do mal ou da ira.

A violência insolente
faz tremer as margens do corpo
e na sua lenta combustão como de azinheira
a tinta das veias escreve esse calvário
quando era profanado o templo da carne
e no ar se escreviam garatuja, grafitis
com a voz enlameada e suja desse grito
que calcina os lábios, as cordas da boca,
“porque eu não sabia falar,
porque eu era analfabeta,
porque eu era um vulto
porque eu não valia um tostão”.

Oh, corpo de papel para a fogueira.
(de El ángel de la ira, 1999)

[Elefantes] 

Como os elefantes, a mulher
inquieta-se perante os ossos da sua espécie,
mexe nervosamente a cabeça,
extravia-se e tropeça com a sua dor.
Os esqueletos longos, mascarões
que aventaram para o mar e o pleistoceno
para dormir, lavados pela água
até se tornar lâminas de luz,
são uma ferida aberta e silenciosa
que os grandes mamíferos erguem
com tal delicadeza, com caninos
no seu arabesco e a sua melancolia.
Porque os elefantes, a mulher,
alçam a ossamenta dos seus
e os aninam com os seus grandes dentes,
os mexem com paixão e com toleima.
Como os elefantes, a mulher
cobre a sua pele de areia e de termites,
lança as suas costelas, as suas costas,
a terra dos seus mortos, recobre-se
da sua aspereza seca, ventaneira
ou lufada de tempo calcinado
e canta lenta uma canção
que, na sua baixa frequência, é apenas escutada
por congéneres remotos, primordiais.
Quando ela pinta os seus dentes de marfim,
Dentina opaca e branca, romboidal
que prestigia a sua boca e mais sua alegria,
a mulher esculpe neles a aflição
preciosa, endurecida como uma laje
que é atravessada pela luz e a submete.


(de Atavío y puñal, 2012)


[No ar, a pedra]

No ar, a pedra já não dói.
Quando roda, percorre com violência
a idade que caminha até se tornar bronze
e transforma a ferida em cada lasca.

Limadura, fração com que a linguagem
esfaragulha a pedra nas suas duas sílabas
como vocábulo fendido e estilete
que aguça a humildade da desfeita
para oferecer a dádiva do medo,
a floração solar do sacrifício.

Pedra cutelo, búzio de ar
que chói os sons da tribo
no tambor solene da guerra,
na angústia e o peçunho do animal,
na desesperada turbação
com que Gaza sangra pelas suas cifras.

No entanto, a pedra resiste-se.
Não é pronta a ser domesticada.
Há no seu coração um alto pássaro.
Há nela arrecifes, elefantes,
caminhos e escadas, solilóquios,
as circunvoluções, o destino,
a álgebra, a luz das estrelas,
o abraço de Abel e de Caim.
Há no seu coração um alto pássaro.


Quando voa no ar, já não dói.

(de Fiebre y compasión de los metales, 2016)




© Texto: María Ángeles Pérez López
© Tradução: Xavier Frias Conde


quarta-feira, 23 de março de 2016

TRÊS POEMAS DE RITA CAPUCHO

no estamos
hechos distancias
no estamos
hechos recuerdos
no sabemos
nostalgia
sentimos
otras cosas
no sentimos
ese dolor
esa infelicidad
de nuestro amor
no vivimos
un amor ausente
antes el dolor
de un amor
ausente
que el dolor
de no
sentir
ese dolor

***

cada uno de nosotros tiene su desierto
y su fantasma
un soledad viciada
que nos remite al yo y al tú
pero, mi amor,
recuerda que solo los amantes sobreviven
y no te olvides
que este tiempo nuestro
ya se ha deshecho en la piel, en la mirada, en la boca

***

Estamos de espaldas
Sosteniendo las paredes de casa
Manteniendo la ventana abierta
Rompiendo las paredes horizontes
Una mirada de esperanza
Centinela de una prisión
En tiempos de amar
Retirar los destrozos del abandono
Sostener el aire en el aire
Para el tiempo en la espera
Soltar avanzar
Ser viga
Y cantar

© Texto: Rita Capucho
© Tradução: Xavier Frias Conde

quinta-feira, 17 de março de 2016

A LUZ DO SILÊNCIO [3 POEMAS] DE SANDY GARCÍA

ISOLAMENTO

A solidão não tem nome.
Nem homem / mulher.
O sapo foi comido pelos girinos.
A repetição está aniquilada.
Triunfo do nada, desgraça de todos.
As cicatrizes na pele.

AS MÃES

Posso estar amotinada
contra
minha mãe,
as mães de Maio
as de Julho e as de além.
Com as que não puderam
exercer porque a avó
se perdeu pelo caminho
por falta de insitinto de maternidade.
Viraram egoístas.
Posso ser cruel com todas elas.
E no entanto, elas não são capazes
de largar o cordão umbilical
que as une
e esmaga no interior.
Sim.
Há mães medusa,
mães comestíveis.
Não todas as mulheres são mães.
Isto é certo
e
... dói


ESPERANÇA

Saudade se chama o teu nome
que não tem nome nem letra,
nem fome, nem boca.
Saudade o arrepio.

A madrugada da ideia
que morre no lume
do verbo amor
e acorda na manhã
entre lençóis de morte
escorregados em almanaques
do ontem.

© Texto: Sandy Garcia, de La luz del silencio.
© Tradução: Xavier Frias Conde

segunda-feira, 14 de março de 2016

DOUS POEMAS DE EMMA FONDEVILA

TRAVELLING

Sempre, sempre
a avançar... a nos afastar.
Entre duas luzes: uma nos acolhe,
outra nos cega até chocarmos contra ela.
Trânsito da vida numa nebulosa absurda
virada para o mesmo ponto do espaço,
para o início ou para o nada:
o iminente passa a ser recente
e dilui-se já no magma da recordação.
Ontem temíamos este hoje
e hoje já é quase passado,
realidade superada pela urgência
do que se debruça num horizonte ilusório.
Hoje, amanhã, ontem,
lua e sol em sucessão constante,
tu e eu adormecendo e acordando,
lembrando e esquecendo tu e eu,
caminhando e descaminhando os passos do tempo.
Como uma curta de Ettore Scola:
1943, um miúdo que corre e uma sala de cinema.
1997, outro miúdo e o passado que torna a ser presente.
Mudam os rostos, mudam as cores,
ontem e hoje apostando pela mesma mudança,
avançando sem nunca chegarmos...
para onde?
Outra vez o Gatopardo
para algo mudar,
para tudo ou quase tudo
continuar na mesma,
no cinema,
na vida...
Onde é que fica a realidade?



ANESTESIA

Anuncio-te a minha ausência.
Estarei fora
numa viagem incerta
pelo escuro
pelo só
pelo nada.
Por um sonho sem sonhos,
pela falta de ti
e da tua lembrança.
Estarei fora
das minhas saudades,
dos meus anseios,
dos meus sofrimentos
e gozos
de tudo quanto sou.
Voltarei
—espero—
dum espaço sem dias de ontem,
duns parênteses de mim sem mim,
dumas horas sem tempo,
dumas horas não vividas,
perdidas
que nunca
nunca
lograrei recuperar.

© Texto: Emma Fondevila
© Tradução: Xavier Frias Conde

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

TRÊS POEMAS DE PAÚL PUMA

ELOY ALFARO HÍPER STAR (2001) [fragmento]


big

bang

no início deus criou a amargura

a terra estava desarrumada e vazia
as trevas flutuavam sobre o perfil do abismo
o espírito de algo remexia sobre a face de uma bágoa

e deus extraiu da bágoa
e deus extraiu da bágoa
o céu e a terra

que tiveram amor e se regaram
no firmamento como astros

the heaven strong[2]

depois disse deus
façamos o homem à nossa imagem e semelhança
desesperado
para não se sentir sozinho

no vazio
que avançava aproveitando-se
da beleza
do horror

e fez a noite e o dia

plaf
grr r oh
grr r oh
gr h
plaf

e disse deus seja a luz
e foi a escuridão...




FELIPE GUAMÁN POMA DE AYALA (2002) [fragmento]


Oh, Wamán, meu avô:

Pereça o momento em que fomos partidos.

Pereça essa impenetrável árvore da carne.

Pereça o dia em que tu nasceste e eu morri.

Seja sombria a pirâmide em que havemos de chorar:

ramal bordado com nuvens de sangue:

traços em nós que voltam para a madeixa da recordação.

Soma da solidão na penumbra do buraco negro
que finge ser uma pinta no teu corpo tão antigo,
mais do que os olhos ocultos do Sacsahamán
ou a cabeça do nosso império
no centro da perfeição da afonia,
nessa cidade de amautas e aravicos e quipucamaios
e tecedores de ponchos com mais de sete mortes
que se rebelam contra si
para recordar que ainda estão vivos.

Ego da melancolia

Invenção da tristeza.

Perda.

Noite hasteada de libélulas atrozes.




GUAYASAMÍN (2010) [fragmento]


Oswaldo:

No início
o teu A era mais do que uma ave invisível
a proteger a cria da tua vontade impalpável
do Acaso.

Tudo era Caos e Silêncio.

Muito Silêncio.

Depois o teu B quis ser uma pequena povoação originária,
uma semente,
um ponto.

Na altura apareceu o teu C com o caminho num percurso da terra
que as letras anteriores tinham de seguir.

Forjaste as tuas elípticas com as tuas próprias mãos,
com o leite derramado por tua mãe entre os teus lábios e teus dedos.

E acordaste fechado num D de lodo e frutas silvestres.

O teu E
não pôde mais do que se tornar um edifício muito alto,
do qual se podia ver o futuro,
a poética da profética.

Dali o teu F tentou voar como sucessão de pontos até a linha
para emitir sons desde a garganta do G.

E o teu G subido com as outras letras
nas torres do H do homem recém instaurado na desolação
produziu um triste grunhido,
monocórdio,
alçado até aos mais escuros cimos
da intuição
da linha e da curva.

Então apareceu o teu I com a sua auréola enciclopédica, a sua Ordem.

E o J do teu conhecimento líquido
macerou-se nos abismos da tua inteligência
como um vinho de milho mastigado pelos teus irmãos
e fermentado para se tornar a bebida dos deuses,
elixir do perdurável amor pelo Universo...

© Texto: Paúl Puma
© Tradução: Xavier Frias Conde




[1] Sed y hambre, cántico de ángeles rebeldes, lupanar de la insurrección. A propósito de pecíolos inconclusos, soliloquio hedónico.
[2] Sede e fome, cântico de anjos rebeldes, lupanar da insurreição. A propósito de pecíolos inconclusos, solilóquio hedónico.