domingo, 6 de dezembro de 2020

DE DIAS COMO NOITES, DE MARIANO GAMO


I

Fundo-me contigo quando alguma tua parte faz um movimento de que em ti surjo e expressas. Porque contigo a luz é maior. Porque és uma lâmpada que se acende com as mãos e gosta de saliva, capaz de se mexer e trazer para este tempo a sabedoria das mulheres das antigas sociedades.

Quero fazer contigo todos esses restos que ficam quando o metal confia no maçarico. Salpicar com as tuas asas de prata que vestem o mais prezado dos mates.

Cada bocadinho que aparece no teu corpo é a pincelada salientada que leva todos os pigmentos que absorvem o olhar e, de certo, a luz.

Desfrutemos de vencer o tempos sem o salvarmos, até ele vencer.

Celebremos o canto da desfeita. Sejamos o casal de golfinhos que dever nas crateras das melhores festas.

Com o teu sabor na boca, a casa cheira doutra maneira e ver-te como te esticas é o prazer interior do raio que nas casas para partilhar tardes de sonho.

II

Pintam-se alegrias com a boca das andorinhas que ousam voar baixo, sem por isso chover. Alegrias de manhã pelo teu ar respirado pelos ouvidos e do prurido que agradece a lama que apaga da tua pele o que tem a mais, exalam o brilho do sussurro que enleia palavras sem ser fio.

Fazem caminho para a dita a meio da tarde, sem medida concreta nem superável, sorriso travesso que por ti aguarda espalhado, sem enquadramento. Vem ao céu da tua língua, engana-se a ciência e pede para me excavares.

III

Pôr-se a falar de cavalos. Pôr-se a falar de cavalos e de éguas ao galope. Falar de cavalos e galopar. Mudar a montura por uma outra lubrificada e bem segurada, com um chicote numa axila cheirada previamente, e fazer uma boa galopada e escutar como se é que me pedes que termine a corrida sobre ti a me chamar a tua vida.

© Texto: Mariano Gamo
© Tradução: Xavier Frias-Conde

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